As palpitações são um sintoma comum na prática clínica, frequentemente levando pacientes ao consultório médico. Embora muitas vezes benignas, podem ser a manifestação de arritmias cardíacas significativas, que demandam diagnóstico e tratamento precisos. O desafio reside na natureza intermitente desses eventos: episódios esporádicos e autolimitados escapam facilmente aos métodos diagnósticos de curta duração. É nesse cenário que o monitoramento prolongado do ECG se destaca como uma ferramenta essencial.
O Limite dos Métodos Convencionais
O eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações em repouso e o Holter de 24 horas são pilares na avaliação inicial de palpitações e outras queixas cardíacas. No entanto, sua eficácia diagnóstica é limitada quando as arritmias são infrequentes. Estudos demonstram que o Holter de 24 horas pode falhar em capturar eventos arrítmicos em uma parcela significativa de pacientes, especialmente aqueles com sintomas intermitentes que ocorrem menos de uma vez por semana [1]. Essa limitação gera incerteza diagnóstica, ansiedade para o paciente e, em muitos casos, a necessidade de investigações adicionais ou repetições de exames, elevando custos e prolongando a jornada do diagnóstico.
A Eficácia Diagnóstica do Monitoramento Prolongado
O monitoramento prolongado de ECG amplia significativamente a janela de detecção de arritmias. Dispositivos como o Holter estendido (com duração de 3 a 7 dias ou mais) e os gravadores de loop externos (ELRs) permitem registrar a atividade elétrica cardíaca por períodos que podem variar de dias a semanas. Para casos mais complexos, com sintomas altamente infrequentes, pode-se considerar o uso de gravadores de loop implantáveis (ILRs), que oferecem monitoramento contínuo por vários anos.
A superioridade diagnóstica do monitoramento prolongado é bem estabelecida:
- Um estudo recente destacou que o monitoramento de 7 dias detectou arritmias mais significativas em comparação com o monitoramento de 24 horas e 3 dias, sendo capaz de identificar eventos que teriam passado despercebidos em períodos mais curtos [1].
- Dados indicam que o monitoramento estendido pode duplicar ou triplicar os achados diagnósticos em comparação com o Holter tradicional de 24 horas [2].
Comparação da Taxa de Detecção de Arritmias em Diferentes Períodos de Monitoramento

Fonte: Dados hipotéticos baseados na superioridade diagnóstica do monitoramento prolongado em comparação com métodos de curta duração [1].
Arritmias que o Monitoramento Prolongado Ajuda a Desvendar
A eficácia diagnóstica aprimorada é crucial para identificar diversas arritmias, mesmo as mais elusivas:
- Fibrilação Atrial (FA): Especialmente a FA paroxística, que pode ser assintomática ou causar palpitações intermitentes. A detecção precoce da FA é vital para iniciar anticoagulação e prevenir eventos tromboembólicos, como o Acidente Vascular Cerebral (AVC). O monitoramento prolongado tem um papel fundamental na detecção da FA em pacientes com AVC criptogênico.
- Taquicardias Supraventriculares (TSVs): Muitas vezes autolimitadas e rápidas, podem causar palpitações súbitas e ansiedade. O registro prolongado permite caracterizar o tipo de TSV, orientando a terapia ablativa ou farmacológica.
- Extrassístoles Ventriculares (EVs) Frequentes ou Não Sustentadas (TVNS): Embora as EVs isoladas sejam comuns, um grande número ou episódios de TVNS podem indicar um substrato cardíaco subjacente ou, em certos contextos, aumentar o risco de eventos adversos. O monitoramento prolongado quantifica a carga de EVs e sua relação com os sintomas.
- Bradicardias e Pausas Sinusais: Podem ser causas de síncope ou pré-síncope, e muitas vezes não são capturadas em registros de curta duração.
Custo-Efetividade: Além do Preço do Exame
A análise de custo-benefício do monitoramento prolongado vai além do custo direto do dispositivo. A superioridade da custo-efetividade se manifesta na otimização dos recursos a longo prazo. Um diagnóstico rápido e preciso evita a repetição de exames inconclusivos, reduz consultas médicas desnecessárias e, principalmente, previne complicações graves decorrentes de arritmias não diagnosticadas. Por exemplo, a detecção precoce de FA e o início da anticoagulação podem evitar um AVC, cujos custos de tratamento e sequelas são exponencialmente maiores. Ao fornecer um diagnóstico definitivo, o monitoramento prolongado direciona o tratamento adequado mais cedo, resultando em melhores desfechos clínicos e menor utilização de recursos de saúde a médio e longo prazo.
Impacto na Prática Clínica e as Recomendações das Diretrizes
O impacto do monitoramento prolongado na prática clínica é transformador, principalmente na melhora da acurácia diagnóstica. Médicos generalistas podem se sentir mais seguros ao encaminhar pacientes para esse tipo de monitoramento, pois ele aumenta as chances de um diagnóstico conclusivo. Para o cardiologista, ter acesso a uma gravação mais completa da atividade elétrica do coração resulta em decisões terapêuticas mais embasadas.
As principais sociedades cardiológicas têm reconhecido a importância do monitoramento prolongado:
- Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), European Society of Cardiology (ESC) e American Heart Association/American College of Cardiology (AHA/ACC) frequentemente recomendam o monitoramento prolongado de ECG em pacientes com suspeita de arritmias intermitentes, síncope de causa inexplicada, ou para rastreamento de FA em populações de risco (por exemplo, após um AVC criptogênico). A duração do monitoramento é frequentemente sugerida com base na frequência dos sintomas.
Caso Clínico Ilustrativo:
Uma paciente de 62 anos comparece ao consultório com queixas de palpitações intermitentes, descritas como “coração disparado”, ocorrendo cerca de duas a três vezes por mês e durando poucos minutos. ECG de repouso normal e um Holter de 24 horas não revelaram arritmias. Devido à persistência dos sintomas e ao histórico familiar de FA, optou-se pelo monitoramento com um Holter estendido de 7 dias. No terceiro dia de monitoramento, a paciente relatou um episódio de palpitações, e o exame registrou um período de Fibrilação Atrial paroxística. Com o diagnóstico confirmado, foi iniciada a anticoagulação e o tratamento para controle de ritmo, prevenindo potenciais complicações tromboembólicas.
Recomendações Práticas para a Rotina Clínica
Para otimizar o uso do monitoramento prolongado de ECG na sua prática, considere as seguintes orientações:
- Indicação Precisa: Priorize pacientes com sintomas arrítmicos intermitentes e sem diagnóstico conclusivo após avaliação inicial e Holter de 24/48 horas. Inclua síncope inexplicada e AVC criptogênico nas indicações.
- Educação do Paciente: Explique a importância do monitoramento prolongado, como usar o dispositivo e o que registrar (sintomas e horários), para maximizar a chance de um diagnóstico.
- Escolha do Método Adequado: Para sintomas semanais ou a cada poucos dias, um Holter estendido de 3 a 7 dias ou um ELR de 14 a 30 dias pode ser ideal. Para sintomas muito raros, avalie a necessidade de um ILR.
- Interpretação e Laudo Ágil: Garanta que os dados coletados sejam analisados e laudados em tempo hábil para agilizar a decisão terapêutica.
- Colaboração Multiprofissional: Trabalhe em conjunto com a equipe de enfermagem e técnicos que operam os dispositivos para garantir a correta aplicação e instrução ao paciente.
Conclusão
O monitoramento prolongado de ECG representa um avanço significativo na cardiologia, superando as limitações dos métodos de curta duração e oferecendo uma melhora substancial na acurácia diagnóstica. Ao integrar essas tecnologias na prática clínica, os profissionais de saúde podem diagnosticar arritmias de forma mais eficaz, iniciar tratamentos mais precocemente e, consequentemente, melhorar os desfechos para os pacientes. É uma ferramenta indispensável para desvendar os “Casos Desafiadores de Palpitações” e consolidar uma abordagem mais completa e custo-efetiva na cardiologia moderna.
Referências Bibliográficas
- Lim Y. L., Mond H., et al. (2023). Seven-day holter monitoring detects more significant arrhythmias than 24-hour and 3-day monitoring. European Heart Journal 44(Suppl_1):ehac779.014. DOI: 10.1093/eurheartj/ehac779.014. Disponível em: academic.oup.com
- Philips Brasil. (28 ago. 2023). Dados da Philips mostram que o monitoramento prolongado do ECG Holter pode melhorar os resultados do diagnóstico. Philips News. Disponível em: www.philips.com.br